Archive for julho, 2012

Mercadorias, comportamento espetacularizado e as relações sociais

terça-feira, julho 31st, 2012

por Rita de Cassia Paludetto Fernandes (mestranda PPGCOM ESPM)

Eu sempre pratiquei o people watching. Gosto de observar o comportamento das pessoas, em qualquer lugar, em todos os lugares. Observo como ser portam e se comportam, como falam, gesticulam e se relacionam com o estado de coisas e uns com os outros. Em minhas andanças pelo Brasil e mundo afora, observo os comportamentos de grupos e povos, comparando os diferentes meios e culturas, procurando compreender as formas de apropriações de sentido do estado de coisas e as configurações de cada realidade.

Que os brasileiros têm fama de serem pessoas alegres e simpáticas não é novidade para ninguém. Somos também conhecidos como pessoas acessíveis e que adoram conversar e uma novidade e, não por acaso, o Brasil figura no topo dos rankings de maior número de usuários de redes sociais e de tecnologias, sobretudo de aparelhos pessoais. E é aí que estabeleço o lugar da minha reflexão: no espetáculo do uso de aparelhos eletrônicos individuais.

Concordamos que os notebooks, tocadores de música digital, netbooks, celulares, smartphones, tablets foram invenções que facilitaram a comunicação, as relações sociais, a vida, principalmente no que tange à mobilidade, mas isso não assegurou um uso adequado. As cenas de exibição de aparelhos são tão corriqueiras em nosso cotidiano que não nos damos conta do quão espetaculosos se tornaram seus usos e do quão inoportunos são os modos quando inapropriados.

As fotos acima foram tiradas em diferentes lugares e situações de trabalho e de lazer e ilustram a relação dos indivíduos com as parafernálias tecnológicas. As imagens são parte de uma pequena coleção de fotos do cotidiano com o olhar interessado na presença dos aparelhos eletrônicos nas relações sociais da vida contemporânea.

Os aparelhos podem ser percebidos de diferentes maneiras e podem ter diferentes usos, significados e valores sociais. Para Pierre Bourdieu, o valor de uso – formado pelas funções – e o valor simbólico – formado por um conjunto de significados – distingue e hierarquiza os indivíduos, sendo que para ele “as classes médias manifestam a preocupação em aparecer”.(2011, p. 190) E os eletrônicos, especialmente os smartphones são um bom exemplo para a sua teoria: são aparelhos com design arrojado, personalizáveis, multifunções, são ícones da contemporaneidade, com sucessivos lançamentos e se tornaram um dos itens preferidos dos brasileiros para marcar posição social. No Brasil há mais de 40 milhões de usuários de telefonia celular com internet móvel, segundo o ministério das Comunicações[1], e a tendência é de crescimento, já que o país tem pouco mais de 250 milhões[2] de celulares e “as pessoas preferem ter um celular conectado à internet” segundo o próprio ministério.

Fazer o uso de equipamentos eletrônicos faz parte do nosso dia-a-dia, mas para qualquer uso, precisamos passar por um certo aprendizado, consciente ou inconscientemente. No caso de uso de produtos, precisamos passar pela pedagogia do consumo, pelos modos de manipular os objetos, e isso vale também para serviços e experiências de todos os usuários.Um novo equipamento, uma nova função, um ambiente antes desconhecido, um novo smartphone, por exemplo, pede um aprendizado próprio até que as ações e funções sejam incorporadas e naturalizadas no manuseio. O uso adequado pressupõe também a familiarização, que é a forma de reconhecimento, com normas e condutas sociais porque o ato do consumo transcende o uso dos produtos e serviços para, sim, marcar posição nas relações sociais.

Os números de usuários de smartphones são crescentes e nos convidam, a refletir sobre a sociedade brasileira tendo como perspectiva as teses da teoria crítica da Sociedade do espetáculo escrita por Guy Debord em 1967. Para ele, “o espetáculo não é um conjunto de imagens. É uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens” (DEBORD, 2003, p. 14). As mercadorias representadas pelas imagens acima exemplificam que “o espetáculo é o momento em que a mercadoria chega à ocupação total da vida social” (DEBORD, 2003, p.30): na sociedade brasileira contemporânea, e sobretudo com a expansão do poder econômico nos últimos anos e com o ingresso de novos contingentes ao “mundo dos bens”, o acesso a novos produtos revelou o espetáculo das relações sociais para além do uso de produtos e serviços. Essa relação social de exibicionismo de mercadorias revela posições e hierarquias. “O espetáculo é a outra face do dinheiro” (DEBORD, 2003, p.34). Os smartphones são demonstrações simbólicas de projeção e de status social e “a sociedade do espetáculo é o lugar onde a mercadoria se contempla a si mesma num mundo que ela criou”. (DEBORD, 2003, p. 35)

Referências bibliográficas

BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. Trad. Daniela Kern; Guilherme J. F. Teixeira. 2. ed. rev. Porto Alegre: Zouk, 2011.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Trad. Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.


[1] Informação disponível no site <http://www.brasil.gov.br/noticias/arquivos/2012/01/26/internet-movel-dispara-no-pais-e-edital-do-leilao-de-4g-deve-sair-ate-abril> acessada em 24/04/2012

[2] Informação disponível no site <http://www.teleco.com.br/ncel.asp>acessada em 24/04/2012

Memorial do Consumo PPGCOM ESPM

quarta-feira, julho 18th, 2012

Na dia 19 de junho, a comunidade ESPM contribuiu com depoimentos para o acervo do Memorial do Consumo. Este museu virtual interativo, permitirá exploração e pesquisa a partir do acesso a conteúdos relativos às praticas de consumo, na forma de narrativas, materialidades e reflexões teóricas e ensaios, conteúdos estes que serão construídos a partir de ações e orientações dos pesquisadores e colaboradores filiados ao PPGCOM-ESPM.

O lançamento oficial do Memorial do Consumo está previsto para outubro, no II Comunicom.

Aguarde mais novidades aqui no nosso BLOG.

PPGCOM ESPM