Posts Tagged ‘comunicação; consumo; comunicação e consumo’

Fredric Jameson:transmissão ao vivo 26/5 – 18h

quarta-feira, maio 25th, 2011

Café Filosófico CPFL Especial Fronteiras do Pensamento 2011
Tendências Culturais Contemporâneas com Fredric Jameson (Crítico literário e teórico político norte-americano)

Jameson procura articular economia, informação, política, estética e todas as áreas da vida contemporânea que perderam suas fronteiras no processo da globalização,expondo uma séria de relações incomuns no mundo da produção cultural.
Transmissão ao vivo a partir das 18h em www.cpflcultura.com.br/aovivo.
Data: 26 de maio
Horário: 19h

Luana e suas fotos das férias – N. 19

terça-feira, maio 10th, 2011

Por Isabel Orofino

Na minha infância menina nos anos 70 meu pai tinha uma câmera fotográfica.   A “máquina  fotográfica”  como nós falávamos, deveria ser uma Olympus Trip-35, talvez a câmera mais popular para o uso familiar naqueles tempos.   Eu me lembro que segurei esta  máquina  umas  duas vezes apenas, cliquei fotos meio tortas de minha irmã mais nova.   Mas a fotografia da vida cotidiana e privada era uma grande novidade para meu pai e a “máquina” era uma descoberta dele, pouquíssimas vezes chegou às nossas mãos tamanha preciosidade ela era para nós.  E as fotografias mesmo  chegavam semanas mais tarde, talvez meses depois de terem sido realizadas.   E nós, geralmente em uma espécie  de ritual líamos as fotos, decifrávamos os detalhes de momentos  especiais e em que de fatos havíamos pousado para a câmera.

A Olympus Trip 35

A Olympus Trip 35

Neste verão, em um aniversário na casa de praia da família, quase 40 anos depois, minha atenção flagra a “máquina” fotográfica de Luana, a bisneta que meu pai não conheceu.  Luana tem 10 anos e sua câmera está  em um telefone celular.   Ela corre para o meu lado no sofá e pergunta se quero ver suas fotos?  Claro!, respondo.  E ela desfila no visor uma narrativa fotográfica desde o dia em que começou a fazer as suas malas em Ribeirão Preto para passar as férias na praia em Santa Catarina.  E mostra, e amplia, e recorta, e volta, e corre para a esquerda e para a direita, tudo muito rápido, enquanto me conta cada detalhe da sua viagem de férias.  Na microtela do celular assisto a uma narrativa em stop motion  desde: a mala ainda aberta em seu quarto e  depois a viagem de carro, a chegada ao destino, o quarto em que vai ficar, o armário, a rua, a praia, a casa da vó, a viagem de carro para a serra com a dinda em um final de semana, a casa da bisavó Dilma.
E como se não bastasse ela desfila também uma reportagem em vídeo!  Havia o registro de uma festa de aniversário na qual um garoto convidado demonstra a aventura de se confeccionar grilos com folhas de erva cidreira ou mato mesmo.   Grilos perfeitos feitos de capim.  Verdes!  Ninguém diria que eram falsos.  E Luana registra tudo!  Uma repórter de imagens.  O artesanato nas mãos dos jovens e em forma de brincadeira em registro na tecnologia nas mãos da criança.  Tudo misturado, como sempre.  Cultura que resiste, cultura que emerge.  Nem parece o fim do mundo com crianças bitoladas pela  tecnologia e de jovens formatados pelos videogames.
Os estudos sobre as relações entre mídias e crianças geralmente apelam para um viés ortodoxo, em que a criança ainda é passiva diante dos meios.   Há controvérsias.  De fato os hábitos de consumo da tecnicidade são de uma transformação radical.  Os suportes materiais de base microeletrônica desencadearam um amplo acesso das classes populares às tecnologias de comunicação e informação, em especial via telefone celular e computador com internet em casa.  Os índices de acesso realmente mudaram nos últimos anos ainda que haja um contingente significativo de pessoas excluídas desta condição.
 Este amplo acesso às tecnologias digitais reconfigura a dinâmica das práticas culturais.  E isto  abre um leque de espaços para a pesquisa e  práticas de intervenção educativa.  E surgem  novas perguntas, sobretudo em relação às transformações das sensorialidades.  No evento  O século McLuhan (SP, 2011) foi possível discutir um pouco a respeito das evidências empíricas, as conseqüências, o devir,  e os  aportes teóricos sobre o tema das transformações cognitivas e da ordem das estruturas de sentimentos e sensibilidades.  Há muitas teses em debate.  Uma guerra de discursos.  Mas um consenso: as materialidades digitais mudaram o mundo profundamente.

Cápsulas para consumo – N. 18

terça-feira, abril 26th, 2011

A felicidade nos mundos possíveis da publicidade

(diálogo com João Freire Filho, a partir de sua aula inaugural no PPGCom ESPM, no primeiro semestre de 2011)

Vander Casaqui

(…)
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

(Trecho final de Morte e Vida Severina,
de João Cabral de Melo Neto)

A questão da felicidade é tão abstrata, tão filosófica quanto presente, de maneira concreta, na vida cotidiana, como sonho, como objetivo, como ilusão talvez, mas que nos move a cada dia sem aparente sentido, a cada passo difícil da existência. Confunde-se com a esperança, com o desejo de mudança, com aquilo que projetamos naquilo que não temos.

A felicidade também é materializada pelo consumo. A linguagem publicitária, ao revestir as mercadorias com objetivos humanos, com sonhos e desejos, faz da felicidade um elemento concreto, objetivado. Mas também múltiplo, pois os mundos editados pelas marcas em torno desse tema são diversos. São propostas concorrentes, quando pensadas no mercado simbólico em que as marcas dialogam entre si através de seus temas, para além das categorias de produtos.
A publicidade do Pão de Açúcar é um dos exemplos mais notórios dessa estratégia. O “lugar de gente feliz” é uma tradução do sentimento para a espacialidade do consumo. O supermercado, com suas prateleiras explodindo de apelos ao olhar, e as conexões dos significados dos produtos e suas marcas com as experiências do consumidor que transita pelos corredores, são promessas de momentos felizes. A campanha publicitária vai generalizar esses fragmentos de felicidade, agenciados pela presença do Pão de Açúcar, para a vida como um todo. O espaço do consumo é transposto para a casa, a rua, a praia, o parque, enfim, para qualquer lugar onde o sujeito possa estar. O consumo está implícito em todos os atos humanos, e a variedade de produtos do supermercado é uma metáfora das possibilidades da vida. Afinal, “o que faz você feliz”?

Imagem do comercial do Pão de Açúcar, no encadeamento poético de coisas e atos narrado pela voz de Gilberto Gil

Imagem do comercial do Pão de Açúcar, no encadeamento poético de coisas e atos narrado pela voz de Gilberto Gil

Em uma das prateleiras, o consumidor pode se deparar com a marca que há tempos se associa à felicidade. “Felicidade líquida”, para a alegria dos leitores de Zygmunt Bauman. A Coca-Cola, em campanhas recentes, tem desenvolvido seu discurso que traduz as cadeias da produção ao consumo, em torno desse tema. Na campanha que ganhou a Internet como viral, sem deixar de estar presente na mídia tradicional, o filme “Happiness factory” nos apresenta a “fábrica” da Coca-Cola, em um processo que se inicia com o ato de um rapaz, quando insere uma moeda em uma vending machine. O mundo por trás da máquina de refrigerantes é espetacular: cenário mágico, lúdico, povoado de seres vindos de um imaginário delirante, todos felizes em sua devoção à divertida tarefa de fabricar a bebida de gosto juvenil just-in-time. O mundo da produção é a terra neo-psicodélica da Coca-Cola. A esfera do trabalho, para fazer trabalhadores felizes, precisa da ficção. Quanto mais distante da realidade, dos impactos perversos da automatização, das pressões cotidianas, da flexibilização e precarização dos vínculos empregatícios, melhor para o mundo editado pela publicidade.

Cena do comercial “Happiness Factory” da Coca-Cola: a fantástica fábrica da felicidade, um delírio da produção.

Cena do comercial “Happiness Factory” da Coca-Cola: a fantástica fábrica da felicidade, um delírio da produção.

A felicidade da marca é produzida e consumida. É o que promete o slogan recente de sua publicidade: “abra a felicidade”. O cenário é a praia, o mar, a eterna promessa do verão. Jovens mergulhados, boiando em uma câmara de ar, no interior de uma garrafa gigante de Coca-Cola, vivem intensamente sua experiência física com o refrigerante. A trilha sonora, no estilo daqueles rock-pops que fazem a cabeça da galera conectada de hoje, dita a edição das imagens, na estética do videoclipe. Rock inofensivo, domesticado. NXZero? Restart? Tanto faz. O importante é ser feliz.

Imagem do comercial “Abra a felicidade” da Coca-Cola.

Imagem do comercial “Abra a felicidade” da Coca-Cola.

A cadeia se completa: a felicidade produzida chega ao consumo. A Coca-Cola entrelaça as ansiedades e desejos de espírito juvenil com a sugestão de que a felicidade pode ser bebida bem gelada. O gosto é formado em torno de um sentimento tão abstrato quanto presente na vida das pessoas: quase todo mundo quer ser feliz, mesmo que não se saiba exatamente o que isso significa. “La vida es sueño”, como escreveu Calderón de la Barca, poeta e dramaturgo espanhol do século XVII.

Mas há algo de perverso nessa promessa de felicidade de nosso tempo. Diante de tantas ofertas, marcas, serviços, livros de auto-ajuda, ser feliz é um dever do indivíduo. Na breve viagem a esse sentimento alimentado imaginariamente na publicidade e nos corredores do supermercado, chegamos ao caixa. O pagamento da conta também tem de ser feliz. É como nos explica a campanha do Visa Electron: é preciso pagar com o cartão, com dinheiro eletrônico, para alcançar a felicidade, ou, ao menos, para evitar a tristeza. Não basta consumir. O nonsense é bastante didático: “usar dinheiro, que coisa triste”. Consumidores que pagam suas compras sem o cartão correm o risco de serem abordados por uma espécie de grupo musical latino, a cantar o “bolero” intimidador com sotaque castelhano. A “câmera escondida” dos comerciais tem um efeito de realidade ameaçador: o próximo pode ser você.

Cena do comercial “Segredo Visa”: o reality show do consumo canta a tristeza de comprar com dinheiro. No canto superior direito da imagem, vê-se a marca do efeito de realidade: “Cenas reais”.

Cena do comercial “Segredo Visa”: o reality show do consumo canta a tristeza de comprar com dinheiro. No canto superior direito da imagem, vê-se a marca do efeito de realidade: “Cenas reais”.

A ameaça de não alcançar a felicidade vira o mote do consumo, como em tantas outras campanhas publicitárias em que o “não-consumidor” é condenado à exclusão da terra prometida pelas marcas. “O mundo é dos nets”, como diz a campanha dos serviços da Net. Recorro a João Cabral de Melo Neto. E torço para que prevaleça o sentido da vida, mesmo que severina, mesmo que perdida entre amontoados de produtos, marcas, promessas e ameaças de felicidade. No brilho dos olhares, nos pequenos gestos humanos, no compartilhamento dos afetos. Nos momentos fugazes que escapam das estratégias da retórica do consumo.

Revista Fronteiras

quarta-feira, janeiro 6th, 2010

fronteiras

Está disponível para consulta o n. 3, v. 11, de set/dez 2009 da Revista Fronteiras – Estudos Midiáticos do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos.

Os artigos podem ser acessados em www.fronteiras.unisinos.br