Posts Tagged ‘corpo’

Cápsulas para consumo N. 26

quarta-feira, dezembro 14th, 2011

Práticas de consumo de meninas infratoras: uma breve reflexão
Juliana Loureiro de Oliveira

 Uma série de notícias sobre um grupo de meninas que fazia arrastões em lojas de um bairro nobre de São Paulo chamou a atenção dos meios de comunicação em agosto deste ano. Além de o crime, comumente associado ao gênero masculino, ser protagonizado por jovens meninas, chama a atenção os tipos de produtos que elas buscavam em muitos desses arrastões: celulares (de preferência cor-de-rosa), lentes coloridas e produtos para alisar o cabelo (i) . Trata-se de um grupo que busca se inserir na sociedade de consumo através da apropriação de determinados bens por meio de uma prática ilícita. Contudo, essa busca vai além do simples desejo de poder obter tais produtos, pois está relacionada a uma série de processos simbólicos implicados no consumo.

Partindo da perspectiva teórica de Canclini (1995), consumir não corresponde a uma prática irreflexiva ou uma simples forma de atender alguns caprichos. Se apropriar de determinados bens é seguir uma lógica de construção de símbolos, uma racionalidade comunicativa. Em uma perspectiva antropológica, trata-se de um ritual que produz sentidos e constrói um sistema de representações, “definindo uma espécie de arena onde circulam e se traduzem significações coletivas” (ROCHA e BARROS, 2008, p.88). Sendo assim, as práticas de consumo de uma determinada cultura carregam em si seus anseios, seus valores e sua forma de pensar e ver o mundo.
Consumir é, então, uma questão social e simbólica, que se estabelece no coletivo. Por ser um fenômeno compartilhado, não pode ser visto como algo reduzido a gostos e vontades individuais. Todos nós consumimos, e o fazemos não somente para suprir necessidades ou por que gostamos de determinado produto, mas sim por que, ao consumir, estabelecemos relações com outras pessoas, marcamos diferenças e semelhanças, atribuímos significados às nossas experiências e a quem somos. A partir desse entendimento, o consumo torna-se algo de importância central na vida das pessoas. Todos – por mais arriscada que seja uma generalização – buscam fazer parte da sociedade de consumo. Mesmo que isso implique em contrair dívidas ou em recorrer a meios ilícitos, como no caso das jovens infratoras.
Contudo, o consumo expressa um sistema classificatório que atribui valor a determinadas coisas e despreza outras. E nisso, revela-se um dos seu lados perversos: através das coisas, classificamos também as pessoas, criamos uma hierarquia. Nessa perspectiva, aqueles que têm acesso aos bens de consumo mais desejados, têm, consequentemente, um status mais elevado. Consumir é, então, uma forma de se integrar socialmente, de obter prestígio e se diferenciar. Como aponta Rocha e Barros (2008, p.89), “os bens de consumo se articulam com séries de pessoas, grupos, estilos de vida, gostos, perspectivas e desejos que nos envolvem a todos em um permanente sistema de comunicação de poder e prestígio na vida social”.
Sendo assim, torna-se compreensível a forma como estratos mais “populares” buscam se espelhar no modo de consumo das classes mais altas, adotando ou se aproximando – através de réplicas de produtos originais, por exemplo – de seus hábitos e preferências. Entretanto, essas pessoas não recebem passivamente essas influências, se apropriando acriticamente daquele modelo de consumo.  Pelo contrário, ao se apropriarem desses hábitos e bens de consumo, elas os moldam conforme seus gostos e expectativas (ROCHA E BARROS, 2008).

Posto isso, é possível afirmar que o consumo expressa um sistema que distancia ou aproxima as pessoas. No caso das meninas infratoras, ao consumirem produtos vinculados ao feminino – celulares cor-de-rosa e produtos de embelezamento – elas se aproximam de hábitos de consumo de grande parte das meninas e mulheres de outras classes e localidades. O consumo de lentes de contato para ter olhos claros e produtos para alisar os cabelos mostra como a tentativa de reproduzir esses padrões das classes mais abastadas vai além de copiar seus hábitos de consumo. Além de consumir o que as meninas de classes altas consomem, essas crianças e adolescentes econômica e socialmente desfavorecidas querem se parecer com elas;  ou, pelo menos, querem estar inseridas dentro de um padrão de beleza valorizado e idealizado por elas. Isso se mostra evidente na fala de uma das meninas a que a matéria supracitada se refere. Ao ser questionada pela jornalista sobre se ela se achava bonita, a menina negra de 11 anos responde: “Bonita, eu? Olha a cor da minha pele”.
A busca dessas jovens meninas por determinados bens de consumo evidencia, então, a forma como elas compartilham os valores e padrões de consumo e beleza valorizados pelos extratos mais altos da nossa sociedade. Isso se dá através dessas práticas de consumo que produzem sentidos e (re)constroem um sistema de representações e classificações, segundo o qual algumas pessoas “valem” mais do que as outras – e, no caso específico, são mais bonitas que as outras. Pode-se concluir, então, que essas representações perpassam as fronteiras de classe, raça e localidade, sendo incorporadas e reproduzidas por pessoas de diferentes realidades sócio-econômicas.

Referências bibliográficas:
CANCLINI, Néstor Garcia (coord.). Consumidores y ciudadanos. Conflictos multiculturales de La globalización. México Grijalbo, 1995.
ROCHA, Everardo e BARROS, Carla. Entre mundos distintos: notas sobre comunicação e consumo em um grupo social. In: BACCEGA, Maria Aparecida (Org.). Comunicação e culturas do consumo. São Paulo. Atlas, 2008.

(i) De acordo com a reportagem publicada no site da Folha de São Paulo e 28/08/11 “Meninas infratoras buscam sonho de consumo “cor-de-rosa”. Disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/966496-meninas-infratoras-buscam-sonho-de-consumo-cor-de-rosa.shtm

Simpósio sobre Futebol

quinta-feira, outubro 21st, 2010

futebol

De realização do grupo de estudos de futebol do NAVI/GAUM -Núcleo de Antropologia Audiovisual e Estudos da Imagem e do Grupo de  Antropologia Urbana e Marítima da Universidade Federal de Santa Catarina, estão abertas as inscrições para o Simpósio sobre Futebol: Espetáculo e Corporalidade, que acontece nos dias 15 e 16 de dezembro de 2010.

Os interessados em submeter resumos de trabalhos para apresentação no Simpósio têm até o dia 10 de novembro de 2010 para se inscreverem e devem enviar os resumos com título, formação e filiação institucional, email e telefone para matiasgodio@gmail.com.

Mais informações.

II Jornada Paulista de Cinema e Psicanálise

segunda-feira, outubro 11th, 2010

Um dia inteiro para debater o tema do corpo no cinema.

Com: Andrea Mazagão, José Luiz Aidar Prado, Christian Ingo Lenz Dunker, Alexandre Boechat,
 Bernadette Lyra, Mauro Martins, Ana Lucilia Rodrigues, Juan Droguett, Lucia Santaella,
 Celio Franceschet, Fatima Milnitzky, Maria Hsu Rocha.

Entrada Gratuita

26 de outubro de 2010
Local: Instituto de Psicologia da USP – Bloco de Aulas – Auditório Aurora.
Inscrições: ippsc@usp.br ou 11 3091-4173 (Cícera)

Sexualidades, Saberes e Direitos

domingo, agosto 1st, 2010

sexualidade

Organizado pelo grupo de pesquisa Corpo, Identidades e Subjetivações, e financiado pela CAPES e pela FAPESP, o “Seminário Internacional Sexualidades, Saberes e Direitos” acontecerá no Anfiteatro Bento Prado Jr. na área Norte da UFSCar, campus de São Carlos (SP), nos dias 17 e 18 de agosto.

A descrição completa do evento está no site do evento.